(2002)
Se a flor soubesse de você, querida,
Pele sentida de tantos perfumes,
Todas as cores que você resume
Sem ter ciúme p'ra viver a vida.
Se a cor soubesse de você, querida,
A flor havida que em você presume,
P'ra o caminhante fica sendo o lume,
Bom vaga-lume a cintilar na lida.
E sendo flor no meu jardim singelo,
A soberana rosa perfumada
De meus suaves e ternos anelos,
Súdito sou no reino de ventura
Que em companhia da mulher amada Morre de amor, tão cheio de ternura!
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h22
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11º SONETO
(01/80) (na verdade deve ser o soneto 38)
Éramos alegres adolescentes
Sentando a mesma cadeira na escola.
Era o sorriso mostrando os seus dente
Tanto ainda o meu pensamento assola.
Nós éramos um bando sorridente
Com brincadeiras em cada sacola.
Era brincadeira dançante, tente
Se lembrar, que a tristeza vem e amola.
Tudo passou e o tempo foi embora
Deixando-me triste e só. A partida
Ficou inacabada. Resta agora
organizar o que tenho na vida:
restando ainda em mim, minha senhora,
pouco do sonho, que a sonhei querida.
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h20
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Dona Philomena Orlando
Rodolfo Galvão de Oliveira
Professor e pedagogo
r.g.de.olveira@ig.com.br
Na minha vida de criança tive muitos professores ótimos, e para homenageá-los citarei acenas a Professora Philomena Orlando
Entrei na escola com seis anos, a completar em março de 1955, em uma escolinha municipal, lembro-me ainda o nome, Escola Mista Municipal do Horto Florestal, que fica na Avenida São João, onde hoje está a EE Prof. José de Mello Moraes, um antigo isolamento de ‘bexiguentos’ que mais tarde aprendi que eram aqueles que sofriam de varíola. Pela experiência que eu tinha com amigas de minha mãe, as professoras eram velhas, bigodudas, intolerantes, para não dizer más.
Saí sozinho de casa antes das sete horas da manhã, naquele tempo não precisava mãe levar filho para a escola, apesar que a minha casa ficava perto, era só atravessar o capão de mato e se chegava à escola, mas se não quisesse era só dar a volta ela rua São João, por onde havia um caminho de terra, rodeado de eucaliptos e madeiras de lei, como jequitibás, paus-dalho, pau-brasil, e muitas frutas silvestres, além do canto dos passarinhos e o assovio das raposas.
Passei na casa de colegas, formamos umas turminha e fomos para a escola. Lá chegando uma grata surpresa: a professora não era velha, ranzinza, bigoduda. Era uma moça morena, baixinha, simpática, sorridente e linda. Nós alunos ao mesmo instante nos caímos em sua simpatia. Arrumou a fila no hall, e perguntou que quem queria rezar rezava com ela, quem não queria que ficasse quieto respeitando quem orasse.
Eu já sabia ler e escrever com letras de forma, e fiquei desesperado quando descobri que precisava escrever com letra cursiva. Chorei, cheguei chorando em minha casa. Abri a cartilha e havia a lição do tatu e tentei desenhar a palavra com as letras cursivas. Recusei fazer aquele treino bobo de chuva, de onda, e outros rabiscos.
Mas a professorinha era maravilhosa, educada com todos e não gostava que maltratasse passarinhos, o que deixou claro no mesmo dia. Estabeleceu regras, levou o pessoalzinho ao banheiro para prender a usá-lo e naquele dia ninguém ouviu qualquer alteração de voz da professora. Nem nos dias seguintes e nem nos três anos que estudei naquela escolinha, que depois virou multi-seriada. Ela dava prêmios aos melhores alunos e não me lembro se ganhei algum ou não. Quando nasceu meu irmão caçula, ela foi visitar minha mãe e foi um cortejo interessante: ela andando pelo bairro, preferiu dar a volta e não enfrentar o mato, rodeada de crianças, suas alunas, todas elas orgulhosas por ela estar em nosso bairro.
Quando terminei a terceira série precisei mudar de escola, fui estudar no Grupo Escolar Morais Barros, e descobri que eu tinha razão, a minha professora, que saiu logo era velha, impertinente, bigoduda e má, e um dia disse para todos, “até ele sabe, que veio de uma escola muito fraca”. E do Morais Barros só me lembro de meus colegas, do Bino, ao Adilson, e todos os outros que não cabem seus nomes aqui. Ao Wando que me acompanhou da escolinha de Dona Philomena mas foi para uma outra classe...
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h18
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escola antiga 3
Começo de ano do curso de Magistério
Rodolfo Galvão de Oliveira
Professor e pedagogo
r.g.de.oliveira@ig.com.br
Já disse uma vez que invejei o paletó de meu amigo Paulo, paletó que eu tinha tido quando criança, parte de um terno que tinha calça curta, de cor verde petróleo, mandado fazer por meu pai quando eu tinha sete ou oito anos. No Sud ganhamos um tempo até providenciarmos um paletó para uniforme, mas estava um calor dos diabos e fui conversar com o diretor e ele concordou que se não usássemos paletó poderíamos usar o uniforme.
As disciplinas estudadas eram iguais do ginásio, falando da Língua Portuguesa, História e Geografia. O desenho era para que aprendêssemos desenhar coisas que facilitassem a aprendizagem e o primeiro desenho, se não me falta a memória foi o Bidu, personagem novo do Maurício de Souza. Logo depois começaram os desenhos de bichos e objetos que continham letras do alfabeto inteiro. O nome da professora era, me parece Nádia, e morava em São Pedro. Não tenho certeza.
A cada aula um intervalo de 10 minutos, hora de entrada 7:00h e saída 11:50, de segunda a sábado. Nos intervalos descobri que na série seguinte havia um garoto, o Ariovaldo, simpático e amigo e logo entrou em nossa turma, não havia muitos garotos para conversar e o pátio era dividido por um muro, que no nosso curso tinha o portão aberto, mas era menina aqui e menino ali.
A escola também oferecia de manhã o curso ‘primário’ e o curso clássico que quem o fazia eram os candidatos aos cursos de humanidades. Direito inclusive. E no curso clássico muitos rapazes de origem seminarística, um pessoal amigo e interessante.
As garotas tímidas como nós, olhando de soslaio como nós a procura de uma conversa, de um conhecimento mais amigo, para conhecer melhor o colega que acompanhará o curso. Eu fazia concomitantemente um curso de técnico em contabilidade em outra escola e descobri que uma colega nossa, não da mesma classe, também fazia o curso na mesma sala, durante a noite. Foi uma grande descoberta.
Nesse tempo comecei a aperfeiçoar as minhas poesias, horríveis e começaram a sair as mais inteligíveis, com os mais variados temas, desde alegria, saudade, sofrimento, quanto eu sofria intelectualmente não era possível mensurar. Assim estava começando a minha vida de professor, apesar dos hiatos havidos bem mais tarde.
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h17
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escola antiga 2
Um dia de abril no Sud de 1964
Rodolfo Galvão de Oliveira
Professor e pedagogo
r.g.de.oliveira@ig.com.br
Era o ano de 1964, mês de abril, e o Sud continuava com sua rotina no Curso Normal, chamado oficialmente de Curso Colegial de Formação de Professores Primários. A nossa sala era a última, do lado direito da ala que fica na Rua XV de Novembro. Eu me sentava na segunda carteira da primeira fileira, na frente do Paulo.
Eu andava meio ressabiado, o telefone de casa estava grampeado, quando tirávamos do gancho, era um telefone rural, de manivela, ouvíamos o barulho de um gravador, porque meu pai tinha sido um sindicalista e participado de um partido de esquerda. A pressão psicológica e política daqueles que derrubaram Goulart em 1º de abril daquele ano (para mim foi primeiro de abril, não 31 de março como quer a historiografia oficial).
Eis que de repente invade a nossa sala de aula o diretor da escola, que não me lembro o nome, convidando-nos a participar da passeata Com Deus Pela Família e Liberdade, que apoiava o golpe e era organizada pela Igreja e por setores da direita. Perguntou quem iria, e pediu que quem fosse se levantasse. Muitos não se levantaram, inclusive eu, então saiu um sonoro grito que éramos traidores da pátria e que exigia que fôssemos participar. Continuei o quanto pude sentado, mas o que pode um garoto de 16 anos, acusado de traidor da pátria?
Depois de um silêncio, deixa-me lembrar aqui uma palavra quase esquecida por mim, um silêncio sepulcral, a aula continuou de uma maneira incômoda para o professor. E saiu a notícia que haveria uma chamada de verificação de presença, para conferir quem não fosse para as devidas punições. Não sei se isso era verdade ou mentira. Meu pai comentou que não iriam se importar com um adolescente, mas perguntei e com o pai de um deles? O velho Joãozinho não respondeu.
Pelo sim e pelo não compareci no início da passeata que saía do Largo da Paulista e desceria a Rua Governador Pedro de Toledo e fui com meus amigos. Demos o ar de presença e não participamos da passeata.
Essa era a escola em que eu estudava, era a escola maravilhosa, risonha e franca. Tínhamos bons professores, mas a estrutura dela não era de inclusão, era para os mais bem favorecidos da sorte. Mas essa é uma questão pedagógica e deve ser tratada pedagogicamente, mesmo pro aqueles que não entendem de pedagogia e didática. Mas eu tenho saudade daquele tempo, não da escola mas de meus colegas, de meus amigos, que nada tinham com a direção da escola... Um inclusive desapareceu...
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h15
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escola antiga 1
A primeira aula no curso de magistério
Rodolfo Galvão de Oliveira
Professor e pedagogo
r.g.de.oliveira@ig.com.br
Na terceira série do ginásio, no Sud Mennucci, depois de muito perseguido por uma professora de português, reagi e fui transferido compulsória mente ao noturno, eu um pobre filho de operário, mas dizem por aí que no Sud era um tratamento igualitário. Eu nunca vi isso. Completei o ginásio no curso noturno e fui fazer o magistério no período da manhã. Eu tinha dezesseis anos.
Cheguei feliz como todos os adolescentes são felizes de vez em quando, vestindo o meu uniforme impecável de calça caqui e camisa branca, com um SM pregado no bolso, sapatos marrons com meias pretas. Descobri que eu precisava ir de paletó, pois professor deveria usar paletó, inclusive achei maravilhoso o meu amigo Paulo estar de paletó.
Na sala de aula muitas garotas e rapazes poucos, o Paulo, o Roberto, o Albino, o Rudi, o Luiz que ficou pouco tempo e o Oraci, que me chamava de Galvão e eu.. Passaram pela sala muitos professores, e o cheiro de material escolar era muito. Eu não tinha caderno, tinha apenas um formulário, coisa moderníssima, mas que me causou um incômodo enorme, eu perdia todas a folhas que se soltavam. Alguns professores me lembro o nome, Prof. Benedito de Andrade que me ensinou escrever e se não escrevo melhor foi porque não tive capacidade em aprender, Dona Mariinha, Prof. Maria José, Mané, professor de educação física, Prof. Sônia e outros que não me vêem à memória.
O diretor da escola o Prof. Adolfo Basile, dizia-se na época que era faixa preta em um tipo qualquer de luta, foi à nossa sala de aula estabelecer as regras, e para os garotos todos uma fundamental, não podíamos ter cabelo comprido pois não éramos marginais. No primeiro intervalo saímos todos e não havia cantina, apenas um bar na frente da escola, mas não podíamos sair de dentro dela, e um policiamento incrível dos inspetores de alunos e de serventes para coibir qualquer insinuação de namoro, menos ainda, de paquera, que naquele tempo se dizia ao flerte. Nós os garotos fizemos a nossa rodinha, comentamos a escola, as nossas expectativas e de novo bateu o sinal.
Foi a minha surpresa, era aula de música, e o Professor era o Maestro Rossini Dutra que já me conhecia do tempo de ginásio. E tínhamos que cantar, e eu nunca soube cantar, até hoje não consigo cantar duas notas quaisquer. Ele pediu caderno com pautas musicais, fez um teste de afinação com todos e eu não passei, e ele ‘brincou’ comigo: “Galvão ainda não aprendeu a cantar?” Naquele dia tirei a minha primeira nota vermelha no curso de magistério.
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h15
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memória vária 1
Será que esqueci?
Intróito
A necessidade que todo mundo tem é ser reconhecido por alguma coisa que faça. Se nenhuma pessoa reconhecer um indivíduo ele não existe, pois estamos no mundo a partir de que sejamos reconhecidos em nossa particularidade.
Além desse reconhecimento do mundo exterior para com o indivíduo é preciso que esse indivíduo perceba a si mesmo como um ser único, particular e centro do universo, de certa forma como um ser egocêntrico, que é a própria individualidade.
Esta baboseira toda é para justificar se estou inserido na realidade ou não, se tenho importância histórica, pelo menos familiar. Não estou procurando uma origem que sei que tenho, mas vou rebuscar a minha memória para ver se ela ainda fala comigo.
Estou a procura do que aconteceu de fato com a minha formação intelectual, se é que tenho uma. A minha vida não será esmiuçada porque sei que vivi, mas tentarei refazer aquilo que me pareceu menos importante na época e que hoje percebo foi o esteio ao qual me formei.
Não presto conta de nada e nem cobro nada de ninguém tendo em vista que cada um é responsável pela construção de sua própria vida.
Será que ainda tenho memória?
Escrito por r.g.de.oliveira às 21h04
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