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Blog de r.g.de.oliveira
 


Canto de Paz

 

Lectora: Juçara Spinelli

I

Na idade das civilizações
Por tanto tempo já vividas
Não equivale a nada – é eternidade
E nesta fração nunca houve paz

A paz não é somente a ausência
Da guerra bruta que surge fétida
Nem a falta da violência chula
Em cabarés do norte e do sul

A paz não é somente o marasmo
Dos elementos quedos esperando tempestade
É algo mais belo e mais sublime
Talvez seja o próprio Deus

Não cheirar perfumes amenos
Em colo suave de mulher bonita
Não é o filho calado e neurótico
Preso aos quatro cantos da sala

Não é verter sorrisos falsos
De homens e mulheres histéricos
Não é a fome do sexo refulgente
Nem a timidez do sofrido

Não é a voz muda cheia de medo
Esperando não perder o ordenado
Não é o andar lento do vitorioso
Nem o choro amargo do vencido

Não é soluços de amor malditos
Ou minutos acres de solidão profunda
Não é o aperto de mãos inimigas
Nem o perdão de uma alma fraca

Não é a história da fadas contada
Nas ruas pela molecada pária
Não é o silêncio do cárcere imundo
Nem a coerção da fé religiosa

A paz não é o que se aprende nas escolas
Por acordos de países beligerantes
Nem o matraqueado de matronas
Desejando o marido da vizinha

A paz não é a conquista do paraíso
Nem a fresca aragem marinha
Não é o rio que corre lento
Entre cascatas de pedra e aço

A paz não é a música dolente
Nem a busca do artista, grande
Não é o esmorecimento na luta
Nem o cansaço de fim de jornada

A paz não é aperitivos pelos bares
Nem serestas de violões enamorados
Não é pomba de se fala tanto
Nem a patativa a cantar no campo


II

A paz é aquilo que sentimos
Quando da justiça nós buscamos
O seu gládio salvador de almas
Atravessando toda a eternidade

A paz é aquilo que sentimos
De bom em nosso peito pulsando
Sabendo que buscamos o progresso
Numa luta para a evolução constante

A paz é aquilo que sentimos
Ao arcar com compromisso cumprido
É a brisa do sol bater suave
Na face de quem pratica o belo

A paz é o amor em sua totalidade
Desprezando o físico e outra coisa
É a ternura em sermos amigos
Da planta do animal do homem

A paz enfim é possuirmos
A consciência tranqüila e serena
De sabermos haver cumprido
Os nossos deveres todos assumidos.

CANTO DE PAZ

I

En la edad de las civilizaciones
Por tanto tempo ya vividas
No equivale a nada – es eternidad
Y en esta fracción nunca hubo paz

La paz no es solo la ausencia
De la guerra bruta que surge fétida
Ni la ausencia de la violencia brutal
En el club del norte y del sur

La paz no es solo el marasmo
De los elementos quietos esperando la tempestad
Es algo más bello y más sublime
Talvez sea el propio Dios

No oler perfumes amenos
En el cuello suave de mujer bonita
No es el hijo calado y neurótico
Preso a los cuatro cantos del salón

No es verter sonrisas falsas
De hombres y mujeres histéricos
No es el hambre del sexo refulgente
Ni la timidez del angustiado

No es la voz muda llena de miedo
Esperando no perder el ordenado
No es el andar lento del victorioso
Ni el llanto amargo del vencido

No son lágrimas de amor malditos
O minutos acres de soledad profunda
No es el aprieto de manos enemigas
Ni el perdón de una alma flaca

No es la historia de hadas contada
En las calles por los niños paria
No es el silencio de la cárcel sucia y mal oliente
Ni la coerción de la fe religiosa

La paz no es aquello que se aprende en las escuelas
Por acuerdos de países beligerantes
Ni el matraqueado de matronas
Deseando el marido de la vecina

La paz no es la conquista del paraíso
Ni el fresco aire marino
No es el río que corre lento
Entre cascadas de piedra y acero

La paz no es la música doliente
Ni la búsqueda del artista, grande
No es el desespero en la lucha
Ni el cansancio del final de jornada

La paz no es un aperitivo por los bares
Ni cantes de guitarras y enamorados
No es el palomo de que se habla tanto
Ni el pájaro a cantar en el campo


II

La  paz es aquello que sentimos
Cuando de la justicia nosotros sentimos
Su gladio salvador de almas
Atravesando toda la eternidad


La paz es aquello que sentimos
De bueno en nuestro pecho pulsando
Sabiendo que buscamos el progreso
En una lucha para la evolución constante

La paz es aquello que sentimos
Al arcar con el compromiso cumplido
Es sentir la brisa del sol tocar suave
En el rostro de quién practica el bello

Paz es el amor en su totalidad
Despreciando el físico y otra cosa
Es la ternura en ser amigos
De la planta, del animal, del hombre

La paz en fin es poseer
La conciencia tranquila y serena
De saber cumplidos
Nuestros deberes,  todos asumidos.



Escrito por r.g.de.oliveira às 20h37
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Reconstrução

Reconstrução

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O tempo passa cruel e santo
Abençoando e maltratando a gente
Mas logo terei nas horas de descanso
Maria minha a cuidar de mim
 
Cada qual faz o que merece
Dando de si o que é capaz
E a luta é a mais bela prece
Que o homem puro pode fazer
 
E eu me levanto soberbo e grande
Com meus poemas e minha luta
Não há governo que me cale a boca
Não há nação que me faça calar
 
Mas diante de uma fábrica
Sorrio e choro cantando samba
Operários do mundo sois minha pátria
Párias do universo sois meus amigos
 
Detesto gente que se diz intelectual
Odeio gente que vive de empregados
Quero instituto e sindicato a todos
Quero a igualdade e a justiça a meus irmãos
 
Não me importo com fausto e gala
Prefiro a festa de pés no chão
Prefiro o samba entre madrugadas
Que guitarras elétricas e opressão
 
Não pátria que se militariza
Minha pátria párias do universo
Abri os braços para a luta santa
Cruzada heróica de divino afã:
 
De dizer DIREITO aos algozes
Que de tribunais condenam delinqüentes
Esquecendo sempre indefinidamente
Que a sociedade que os formou
 
Prostituta vocês são minhas irmãs
Respeitáveis senhoras de antiga profissão
Vocês não teriam existido nunca
Se nós homens não fôssemos prostituidores
 
Vocês viciados em terríveis drogas
Vocês viciados horrível álcool
Não fora a insegurança do tempo
Nem ao menos Noé teria bebido
 
Contudo é válida a RECONSTRUÇÃO
De um novo templo e branco altar
Deitar por terra direito econômico
Surgir do lodo direito verdade
 
Bíblia coleção de livros hebraicos
Todos escritos em puro grego
Deixe de ser coleção opressora
Para ser pesquisa a um passado
 
Caiam os templos quais eles forem
Façamos dele idealista escola
Que servirão muito mais aos homens
Do que vestes sacerdotais
 
Babalaôs pastores pregadores e padres
Viveis de salvardes almas
Se ensinásseis ao menos não exploração
Estaríeis salvando a humanidade
 
Chega de cinismo religioso
O mais terrível freio de meus irmãos
Romperemos a algema de aço
E faremos dela a nossa armade luta
 
E essa luta inteira minha
Não me impede de amar Maria
Maria que não é de Magdala
Mas que é toda cheia de graça
 
Magdalena pertenceste a um Cristo justo
Mostrando a todos a pureza d’alma
Esqueço-me quem sou agora
E me identifico de coração
 
Com o mais humilde dos lixeiros
Com o mais forte proletariado
Esqueço-me de terras e fronteiras grandes
Eu sou do universo inteiro
 
Abro as minha mãos – afago o destino
Destino certo de servos humildes
Humildes esses que não são covardes
Humildes esses que se tornam grandes
 
E que por eles se fazem nações
Pregando amor pátrio para oprimir
Sorrio então de oprimido – revoltoso
De revoltoso – justo grilhão
 
E assim continuo a luta
Iniciada ao início da exploração
Abaixo jóias e coquetéis de orgia
Acima o amor a luta o trabalho
 
Chega então o dia esperado
E em festa o universo inteiro
Cairão do alto flores silvestres
Nascerão do solo novos amores
 
Surgirão do nada fantasmas esses
Que se dirão a verdade e a justiça
De onde houver a falta do  DIREITO
Seremos aí o braço forte da lei



Escrito por r.g.de.oliveira às 20h33
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Crase

Krâsis

 

 

 

 

Há algum tempo uma professora me corrigiu dizendo que o que existe é o acento ‘crase’, e não como aprendi, acento grave que indica crase. Bem, vamos lá, puristas da língua: Procurei no dicionário mais popular, o Aurélio Eletrônico, séc. XXI: 1.      E. Ling. Contração ou fusão de duas vogais em uma só: à (aa); ler (leer); dor (door). 2.Estudo de Linguagem Restritiva. A contração de dois aa.  3. Estudos de Linguagem.  Designação vulgar do acento indicativo de certos casos de crase[i]. Ex.: Em vou à praia, o a deve ter crase[ii]. 4. Temperamento, constituição, índole. 5. Medicina. Mistura harmoniosa dos humores corporais.

Em acento grave achei no mesmo dicionário: b) o acento grave, apenas empregado, de acordo com as normas ortográficas vigentes, para indicar a crase [iii]da preposição a com a forma feminina do artigo (a, as) e com os pronomes demonstrativos (a, as, aquele, aquela, aqueles, aquelas, aquilo): O político falou às massas; Refiro-me àquela pessoa que sabes; Quanto àquilo, nada sei.

Eu não consigo compreender como uma escola que propõe ensinar a língua culta faça esse tipo de afirmação. Eu entendo que as propostas pedagógicas modernas, inclusive o tão difamado construtivismo que muita gente leiga não sabe o que é, confundindo biólogo francês com pedagogo russo, pregam e defendem ardorosamente que o professor utilize o saber que o aluno traz de casa e dele partir para a linguagem culta. Não é para defender ‘para mim fazer’, ‘para mim cantar’, ‘para mim corrigir essa provas todas erradas’.

Não tem sentido escola que ensine errado, que ensine a língua mãe deturpada. E não param aí as coisas esquisitas: estão ensinando valores em lugar de filosofia, estão ensinando comportamento em lugar de sociologia e estão ensinando psicologia como se fosse a panacéia de conhecimento que o aluno precisa ter para se conhecer. Esse é o papel da escola formal? Eu não estou criticando apenas a escola pública que não faz marketing de seu trabalho, critico também escolas particulares que colocam cartazes com a escrita se não errada, equivocada.

E, o pior, nós não temos como controlar isso, os especialistas em educação estão embutidos de trabalho burocrático que não permite que façam alguma coisa além de repassar ordem. E eles reclamam com razão por não terem tempo de se dedicarem mais ao ensino, mas essa reclamação cabe ao sistema, que sei que não me ouve e não houve também quem queira melhorá-lo

 

.

. 



[i] Grifo nosso

[ii] Grifo nosso

[iii] Grifo nosso



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h38
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crônica

Modo de vida ou Filosofia...

 

  

 

 

Após muitos anos a filosofia voltou a fazer parte do currículo das escolas, ela tinha sido vítimas do nosso período de exceção, porque os mi9litares de plantão em Brasília achavam, e com razão, que a filosofia não poder e não fica prisioneira de dogmas, quais eles forem, e mesmo uma filosofia que defenda a força e o extremo o faz com base em uma sustentação, com argumentos, o que os militares que assumiram o poder no Brasil, em 1964, não tinham.

A LDBEN de 1996, a Lei Darci Ribeiro, colocou a Filosofia e a sociologia como disciplina do Ensino Médio, o que alguns educadores, membros do MEC, basta ver os argumentos da Resolução 15 do Conselho Nacional de Educação que argumentam que a Filosofia deveria ser diluída em outras disciplinas, deveria ter uma abordagem transdisciplinar, mas foram derrotados, felizmente.

Agora ocorre outros fatos que deturpam o ensino de Filosofia. Há professores que estão trabalhando ‘modo de vida’ como a sendo. Tem-se o famoso doze passos do amor, da aceitação do outro, dos bons costumes, mas estudar filosofia não se resume nisso, isso é muita pobreza de raciocínio, é não saber o que é Filosofia, o segundo ramo do conhecimento que surgiu, aquele após a mitologia, e que dela surgiram as ciências modernas.

Filosofia: “Estudo que se caracteriza pela intenção de ampliar incessantemente a compreensão da realidade, no sentido de apreendê-la na sua totalidade, quer pela busca da realidade capaz de abranger todas as outras, o Ser (ora 'realidade suprema', ora 'causa primeira', ora 'fim último', ora 'absoluto', 'espírito', 'matéria', etc.), quer pela definição do instrumento capaz de apreender a realidade, o pensamento (as respostas às perguntas: que é a razão? o conhecimento? a consciência? a reflexão? que é explicar? provar? que é uma causa? um fundamento? uma lei? um princípio? etc.), tornando-se o homem tema inevitável de consideração. Ao longo da sua história, em razão da preeminência que cada filósofo atribua a qualquer daqueles temas, o pensamento filosófico vem-se cristalizando em sistemas, cada um deles uma nova definição da filosofia.” É uma definição do Aurélio Eletrônico. Então por que a burocracia de dirige o e3nsino público não orienta esses professores sobre o que é Filosofia, para não cairmos no senso comum de transformá-la em uma mera interpretação moral, nem ética, do ser humano, acima de suas convicções religiosas, lembrando inclusive Agostinho?

Escrito por r.g.de.oliveira às 21h36
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Canto de guerra

Canto de guerra

 

“Hoje amanheço

Sem ter dormido

Com dores no corpo

De alma sofrida

Que a arma pesada

Continua gritando

Nas mãos erradas

Que passam matando

Crianças inocentes

Sofrimento da gente

Porque todos queremos

Viver da justiça

 

Mas não importam

Mortos os filhos

Queremos a horta

De nossos quintais

Crescerem gigantes

Sozinhas para nós

 

 

Eu morro lutando

Meu filho chorando

Mas continuando

Iremos ao fim

Morrer é bonito

Quando por ideal

Nobreza aqui

Mandaremos embora

Capitães aqui

Mataremos à noite

E no dia seguinte

Colheremos o eito

Para durante a noite

Podermos lutar

 

Que vale a vida

Que temos aqui

Se o mais importante

É livre tornar

O grande Palmares

De soldado agressor

O preço que pago

Para isso atingir

É pouco é nada

Comparando somente

Onde quero chegar

 

 



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h33
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Soneto em contra ponto

Soneto em contra ponto

 

A vida eu passei e não caminhei...

Da morte eu fugi e perto vivi.

Do sonho eu caí. Tudo perdi.

A vida eu passei e não caminhei...

 

A morte eu passei e não ofertei...

Da vida eu fugi e perto vivi.

Da estrada eu caí e nada perdi.

A morte eu passei e não ofertei...

 

Se um dia clamo para se ter vida,

Em outro clamo para se ter morte.

Vida e morte e se tendo morte e vida

 

Nisso se resume a sorte:

Mas eu tenho em mim habitando, Rita:

Que tem a paz e o paraíso imita.

 



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h30
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1º SONETO DE 2001

 

 

 

 

A guerra já chegou... de tantas mortes

com as chacinas na periferia:

vira o medo em pavor na noite ou dia

que não garante nunca boa sorte.

 

Também nos palacetes tem aporte

temor... também horror de uma agonia

vinda pelas mãos céleres; havia

a grande chance de uma inglória sorte.

 

São os corpos jogados aos terrenos

(que são estoques esperando aumento),

que perfurados escorrem o sangue

 

que um dia foi menino e foi sereno...

Mas um adulto foi feito pelo vento

Da sociedade que se sente exangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ETERNIDADE

( 1979)

 

 

 

 

A leveza de meus passos lentos,

os ventos que dou quando respiro,

quedas que eu levo em todos momentos,

lentos arfares, leve suspiro

 

que chega trazido pelo vento,

em lentos passos que à vida miro

e, trovoadas, grandes tormentos,

que em ventos mando, a história firo.

 

Das revoluções sou arcabouço,

eu ouço e faço tombar os grandes

em vales grandes que não mais ouço.

 

E fico eu. Pólvora mesmo. Mande

o grande à frente, que ele não ouse

impedir o passo do gigante.

 

 

  



Escrito por r.g.de.oliveira às 00h43
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Ad eternum

Ad eternum

 

 

Não posso parar no meio da rua que um ‘automovente’ me atropelará por certo.

 

Não posso parar no meio de um rio que ele me levará para sempre e eu não mais serei eu e nem eu seria eu se porventura achado, apenas, corpo.

 

A vida é suportável porque sou forte e mais forte que eu apenas o meu eu eu meu eu que eu não mando mas que é eu. SOU EU.

 

Bem depressa pelo tempo

Vou andando

Rita vai junto

Arary filosofa

Anahi filosofa

E Arary

E Anahi

E Rita

Companheiros inseparáveis de jornada pelo tempo.

 

O tempo não o quero

Ele é apenas representação da realidade

Eu sou real sem tempo

Fração não sou não somos não seremos

E a parte fica no indivíduo egoísta

Como o todo somos nós.

 

A eternidade está para mim como está para Rita

Para Anahi para Arary

E a eternidade é ‘ terna’

Já dissera eu menino

Sem as cãs brancas que hoje me cobrem.

 

O moto-contínuo é uma verdade

Moto-serra serra o tempo

Mas o tempo não me serra

Eu cerro o tempo

Porque sou eterno

E nem criado fui

Fui apenas concebido

Por pai e mãe

E pai eu sou como sabem Anahi e Arary.

 

O que fazer com o tempo que insiste em ser soberano parceiro e poderoso.

Eu não quero o tempo

E menos ainda uma representação da realidade

Eu sou a própria realidade

Real e sem comparação e sem medida de tempo

Espaço tanto

Que o tanto muda o tempo ou o tempo muda?

 

Vou

Sendo eu

Sou e vou

Estou

Na lápide que não é fim

É começo de um novo começo

Mas a lápide encerra um tempo

Que não sou eu por que sou a realidade.

 

Arary e Anahi vice-verso verso vice não sei.

 

Apenas que ando e vou sou.

Estou.

Ahhhhhh! Venci o tempo

E da realidade que sou

Apenas ficaram

As minhas pobres ações

Ternas eternas -  à realidade

Me torno

Sou.



Escrito por r.g.de.oliveira às 18h41
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(2002)

Se a flor soubesse de você, querida,

Pele sentida de tantos perfumes,

Todas as cores que você resume

Sem ter ciúme p'ra viver a vida.

 

Se a cor soubesse de você, querida,

A flor havida que em você presume,

P'ra o caminhante fica sendo o lume,

Bom vaga-lume a cintilar na lida.

 

E sendo flor no meu jardim singelo,

A soberana rosa perfumada

De meus suaves e ternos anelos,

 

Súdito sou no reino de ventura

Que em companhia da mulher amada

Morre de amor, tão cheio de ternura!

Escrito por r.g.de.oliveira às 21h22
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11º SONETO

(01/80) (na verdade deve ser o soneto 38)

 

 

 

 

Éramos alegres adolescentes

Sentando a mesma cadeira na escola.

Era o sorriso mostrando os seus dente

Tanto ainda o meu pensamento assola.

 

Nós éramos um bando sorridente

Com brincadeiras em cada sacola.

Era brincadeira dançante, tente

Se lembrar, que a tristeza vem e amola.

 

Tudo passou e o tempo foi embora

Deixando-me triste e só. A partida

Ficou inacabada. Resta agora

 

organizar o que tenho na vida:

restando ainda em mim, minha senhora,

pouco do sonho, que a sonhei querida.



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h20
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Dona Philomena Orlando

 

 

 

Rodolfo Galvão de Oliveira

Professor e pedagogo

r.g.de.olveira@ig.com.br

 

Na minha vida de criança tive muitos professores ótimos, e para homenageá-los citarei acenas a Professora Philomena Orlando

 

 

Entrei na escola com seis anos, a completar em março de 1955, em uma escolinha municipal, lembro-me ainda o nome, Escola Mista Municipal do Horto Florestal, que fica na Avenida São João, onde hoje está a EE Prof. José de Mello Moraes, um antigo isolamento de ‘bexiguentos’ que mais tarde aprendi que eram aqueles que sofriam de varíola. Pela experiência que eu tinha com amigas de minha mãe, as professoras eram velhas, bigodudas, intolerantes, para não dizer más.

Saí sozinho de casa antes das sete horas da manhã, naquele tempo não precisava mãe levar filho para a escola, apesar que a minha casa ficava perto, era só atravessar o capão de mato e se chegava à escola, mas se não quisesse era só dar a volta ela rua São João, por onde havia um caminho de terra, rodeado de eucaliptos e madeiras de lei, como jequitibás, paus-dalho, pau-brasil, e muitas frutas silvestres, além do canto dos passarinhos e o assovio das raposas.

Passei na casa de colegas, formamos umas turminha e fomos para a escola. Lá chegando uma grata surpresa: a professora não era velha, ranzinza, bigoduda. Era uma moça morena, baixinha, simpática, sorridente e linda. Nós alunos ao mesmo instante nos caímos em sua simpatia. Arrumou a fila no hall, e perguntou que quem queria rezar rezava com ela, quem não queria que ficasse quieto respeitando quem orasse.

Eu já sabia ler e escrever com letras de forma, e fiquei desesperado quando descobri que precisava escrever com letra cursiva. Chorei, cheguei chorando em minha casa. Abri a cartilha e havia a lição do tatu e tentei desenhar a palavra com as letras cursivas. Recusei fazer aquele treino bobo de chuva, de onda, e outros rabiscos.

Mas a professorinha era maravilhosa, educada com todos e não gostava que maltratasse passarinhos, o que deixou claro no mesmo dia. Estabeleceu regras, levou o pessoalzinho ao banheiro para prender a usá-lo e naquele dia ninguém ouviu qualquer alteração de voz da professora. Nem nos dias seguintes e nem nos três anos que estudei naquela escolinha, que depois virou multi-seriada. Ela dava prêmios aos melhores alunos e não me lembro se ganhei algum ou não. Quando nasceu meu irmão caçula, ela foi visitar minha mãe e foi um cortejo interessante: ela andando pelo bairro, preferiu dar a volta e não enfrentar o mato, rodeada de crianças, suas alunas, todas elas orgulhosas por ela estar em nosso bairro.

Quando terminei a terceira série precisei mudar de escola, fui estudar no Grupo Escolar Morais Barros, e descobri que eu tinha razão, a minha professora, que saiu logo era velha, impertinente, bigoduda e má, e um dia disse para todos, “até ele sabe, que veio de uma escola muito fraca”. E do Morais Barros só me lembro de meus colegas, do Bino, ao Adilson, e todos os outros que não cabem seus nomes aqui. Ao Wando que me acompanhou da escolinha de Dona Philomena mas foi para uma outra classe...



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h18
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escola antiga 3

Começo de ano do curso de Magistério

 

 

Rodolfo Galvão de Oliveira

Professor e pedagogo

r.g.de.oliveira@ig.com.br

 

 

Já disse uma vez que invejei o paletó de meu amigo Paulo, paletó que eu tinha tido quando criança, parte de um terno que tinha calça curta, de cor verde petróleo, mandado fazer por meu pai quando eu tinha sete ou oito anos. No Sud ganhamos um tempo até providenciarmos um paletó para uniforme, mas estava um calor dos diabos e fui conversar com o diretor e ele concordou que se não usássemos paletó poderíamos usar o uniforme.

As disciplinas estudadas eram iguais do ginásio, falando da Língua Portuguesa, História e Geografia. O desenho era para que aprendêssemos desenhar coisas que facilitassem a aprendizagem e o primeiro desenho, se não me falta a memória foi o Bidu, personagem novo do Maurício de Souza. Logo depois começaram os desenhos de bichos e objetos que continham letras do alfabeto inteiro. O nome da professora era, me parece Nádia, e morava em São Pedro. Não tenho certeza.

A cada aula um intervalo de 10 minutos, hora de entrada 7:00h e saída 11:50, de segunda a sábado. Nos intervalos descobri que na série seguinte havia um garoto, o Ariovaldo, simpático e amigo e logo entrou em nossa turma, não havia muitos garotos para conversar e o pátio era dividido por um muro, que no nosso curso tinha o portão aberto, mas era menina aqui e menino ali.

A escola também oferecia de manhã o curso ‘primário’ e o curso clássico que quem o fazia eram os candidatos aos cursos de humanidades. Direito inclusive. E no curso clássico muitos rapazes de origem seminarística, um pessoal amigo e interessante.

As garotas tímidas como nós, olhando de soslaio como nós a procura de uma conversa, de um conhecimento mais amigo, para conhecer melhor o colega que acompanhará o curso. Eu fazia concomitantemente um curso de técnico em contabilidade em outra escola e descobri que uma colega nossa, não da mesma classe, também fazia o curso na mesma sala, durante a noite. Foi uma grande descoberta.

Nesse tempo comecei a aperfeiçoar as minhas poesias, horríveis e começaram a sair as mais inteligíveis, com os mais variados temas, desde alegria, saudade, sofrimento, quanto eu sofria intelectualmente não era possível mensurar. Assim estava começando a minha vida de professor, apesar dos hiatos havidos bem mais tarde.



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h17
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escola antiga 2

Um dia de abril no Sud de 1964

 

 

 

Rodolfo Galvão de Oliveira

Professor e pedagogo

r.g.de.oliveira@ig.com.br

 

Era o ano de 1964, mês de abril, e o Sud continuava com sua rotina no Curso Normal, chamado oficialmente de Curso Colegial de Formação de Professores Primários. A nossa sala era a última, do lado direito da ala que fica na Rua XV de Novembro. Eu me sentava na segunda carteira da primeira fileira, na frente do Paulo.

Eu andava meio ressabiado, o telefone de casa estava grampeado, quando tirávamos do gancho, era um telefone rural, de manivela, ouvíamos o barulho de um gravador, porque meu pai tinha sido um sindicalista e participado de um partido de esquerda. A pressão psicológica e política daqueles que derrubaram Goulart em 1º de abril daquele ano (para mim foi primeiro de abril, não 31 de março como quer a historiografia oficial).

Eis que de repente invade a nossa sala de aula o diretor da escola, que não me lembro o nome, convidando-nos a participar da passeata Com Deus Pela Família e Liberdade, que apoiava o golpe e era organizada pela Igreja e por setores da direita. Perguntou quem iria, e pediu que quem fosse se levantasse. Muitos não se levantaram, inclusive eu, então saiu um sonoro grito que éramos traidores da pátria e que exigia que fôssemos participar. Continuei o quanto pude sentado, mas o que pode um garoto de 16 anos, acusado de traidor da pátria?

Depois de um silêncio, deixa-me lembrar aqui uma palavra quase esquecida por mim, um silêncio sepulcral, a aula continuou de uma maneira incômoda para o professor. E saiu a notícia que haveria uma chamada de verificação de presença, para conferir quem não fosse para as devidas punições. Não sei se isso era verdade ou mentira. Meu pai comentou que não iriam se importar com um adolescente, mas perguntei e com o pai de um deles? O velho Joãozinho não respondeu.

Pelo sim e pelo não compareci no início da passeata que saía do Largo da Paulista e desceria a Rua Governador Pedro de Toledo e fui com meus amigos. Demos o ar de presença e não participamos da passeata.

Essa era a escola em que eu estudava, era a escola maravilhosa, risonha e franca. Tínhamos bons professores, mas a estrutura dela não era de inclusão, era para os mais bem favorecidos da sorte. Mas essa é uma questão pedagógica e deve ser tratada pedagogicamente, mesmo pro aqueles que não entendem de pedagogia e didática. Mas eu tenho saudade daquele tempo, não da escola mas de meus colegas, de meus amigos, que nada tinham com a direção da escola... Um inclusive desapareceu...

 



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h15
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escola antiga 1

A primeira aula no curso de magistério

 

 

Rodolfo Galvão de Oliveira

Professor e pedagogo

r.g.de.oliveira@ig.com.br

 

 

Na terceira série do ginásio, no Sud Mennucci, depois de muito perseguido por uma professora de português, reagi e fui transferido compulsória mente ao noturno, eu um pobre filho de operário, mas dizem por aí que no Sud era um tratamento igualitário. Eu nunca vi isso. Completei o ginásio no curso noturno e fui fazer o magistério no período da manhã. Eu tinha dezesseis anos.

Cheguei feliz como todos os adolescentes são felizes de vez em quando, vestindo o meu uniforme impecável de calça caqui e camisa branca, com um SM pregado no bolso, sapatos marrons com meias pretas. Descobri que eu precisava ir de paletó, pois professor deveria usar paletó, inclusive achei maravilhoso o meu amigo Paulo estar de paletó.

Na sala de aula muitas garotas e rapazes poucos, o Paulo, o Roberto, o Albino, o Rudi, o Luiz que ficou pouco tempo e o Oraci, que me chamava de Galvão e eu.. Passaram pela sala muitos professores, e o cheiro de material escolar era muito. Eu não tinha caderno, tinha apenas um formulário, coisa moderníssima, mas que me causou um incômodo enorme, eu perdia todas a folhas que se soltavam. Alguns professores me lembro o nome, Prof. Benedito de Andrade que me ensinou escrever e se não escrevo melhor foi porque não tive capacidade em aprender, Dona Mariinha, Prof. Maria José, Mané, professor de educação física, Prof. Sônia e outros que não me vêem à memória.

O diretor da escola o Prof. Adolfo Basile, dizia-se na época que era faixa preta em um tipo qualquer de luta, foi à nossa sala de aula estabelecer as regras, e para os garotos todos uma fundamental, não podíamos ter cabelo comprido pois não éramos marginais. No primeiro intervalo saímos todos e não havia cantina, apenas um bar na frente da escola, mas não podíamos sair de dentro dela, e um policiamento incrível dos inspetores de alunos e de serventes para coibir qualquer insinuação de namoro, menos ainda, de paquera, que naquele tempo se dizia ao flerte. Nós os garotos fizemos a nossa rodinha, comentamos a escola, as nossas expectativas e de novo bateu o sinal.

Foi a minha surpresa, era aula de música, e o Professor era o Maestro Rossini Dutra que já me conhecia do tempo de ginásio. E tínhamos que cantar, e eu nunca soube cantar, até hoje não consigo cantar duas notas quaisquer. Ele pediu caderno com pautas musicais, fez um teste de afinação com todos e eu não passei, e ele ‘brincou’ comigo: “Galvão ainda não aprendeu a cantar?” Naquele dia tirei a minha primeira nota vermelha no curso de magistério.

 



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h15
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memória vária 1

Será que esqueci?

 

Intróito

 

 

 

 

A necessidade que todo mundo tem é ser reconhecido por alguma coisa que faça. Se nenhuma pessoa reconhecer um indivíduo ele não existe, pois estamos no mundo a partir de que sejamos reconhecidos em nossa particularidade.

Além desse reconhecimento do mundo exterior para com o indivíduo é preciso que esse indivíduo perceba a si mesmo como um ser único, particular e centro do universo, de certa forma como um ser egocêntrico, que é a própria individualidade.

Esta baboseira toda é para justificar se estou inserido na realidade ou não, se tenho importância histórica, pelo menos familiar. Não estou procurando uma origem que sei que tenho, mas vou rebuscar a minha memória para ver se ela ainda fala comigo.

Estou a procura do que aconteceu de fato com a minha formação intelectual, se é que tenho uma. A minha vida não será esmiuçada porque sei que vivi, mas tentarei refazer aquilo que me pareceu menos importante na época e que hoje percebo foi o esteio ao qual me formei.

Não presto conta de nada e nem cobro nada de ninguém tendo em vista que cada um é responsável pela construção de sua própria vida.

Será que ainda tenho memória?

 

 

 



Escrito por r.g.de.oliveira às 21h04
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